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Caso de creche em Avaré expõe falhas emocionais e estruturais no cuidado infantil

A convite do Avaré Notícias, a psicóloga Bebel Rossini Tridapali escreve artigo sobre o caso de suposta agressão em creche da cidade.

A todo momento tem-se uma notícia relacionada à agressão. Em âmbito nacional, recentemente, o caso do rapaz que agrediu a namorada dentro do elevador com uma quantidade exorbitante de socos chocou a população. A justificativa do agressor: claustrofobia e diagnóstico de autismo. Neste caso, fica notória a tentativa de burlar o sistema judiciário a fim de evitar penas severas associando a agressividade a possíveis transtornos de ordem da saúde mental.

Não obstante, em âmbito mais próximo, um caso que segue em segredo de justiça causou comoção na sociedade avareense com o fato da Auxiliar de Desenvolvimento Infantil (ADI) ter, supostamente, agredido bebês de aproximadamente um ano em uma creche municipal.

Em ambos os casos, o espanto e a indignação se sobrepõem. A impressão é que a sociedade está adoecendo e, por conseguinte, sendo incapaz de identificar e compreender gatilhos que levam a situações limite; agindo, por assim dizer, de maneira desproporcional, gerando consequências catastróficas.

Neste artigo será abordado de forma mais aprofundada o segundo caso, referente à Auxiliar de Desenvolvimento Infantil. Muitas indagações surgem principalmente por parte da família destas crianças. No que diz respeito à confiança em deixar os filhos no local. A frequência do ocorrido. O fator que motivou essa atitude por parte da profissional. Enfim, todos esses questionamentos geram incerteza, insegurança e medo, sintomas estes relacionados à saúde mental das partes envolvidas nessa história.

No que se refere aos pais, é imprescindível dizer que o sentimento de culpa e a impotência estão presentes. O primeiro exatamente pelo fato de ter que deixar o filho na escola (ou creche) para poder trabalhar, por exemplo. Ou, por não ter percebido anteriormente qualquer mudança no comportamento da criança, já que nesta tenra idade a linguagem é feita através de balbucios, (pequenos sons) e, por essa razão, a criança não está preparada para dizer o que ocorreu. Já a impotência, por sua vez, diz respeito ao fato de não poder agir para evitar qualquer dano ao próprio filho.

É importante ressaltar que os pais ou responsáveis devem estar atentos a qualquer alteração comportamental da criança, que no caso pode ser traduzida por retraimento, choro excessivo, pouca capacidade de sociabilizar, isolamento, perda de interesse para brincar e ir à escola. Situações estas que podem estar relacionadas a traumas vivenciados, mas que cognitivamente a criança traduz por meio de sensações e sintomas e não por linguagem propriamente

Já quanto aos bebês que supostamente foram agredidos, torna-se necessário citar John Bowlby, psicólogo, psiquiatra e psicanalista britânico, grande historiador na teoria no desenvolvimento infantil, principalmente abordando a teoria do apego e a consequente relação traumática do bebê. Dizia ele que a criança em privação de carinho, atenção e amor por parte de suas relações sociais primárias (pais, babá, professores) apresentavam comprometimento e problemas de ordem psicossocial em seu desenvolvimento. Neste sentido, o trauma decorrente da possível agressão no ambiente escolar é fator para ser acompanhado por psicólogos e equipe multidisciplinar.

Todavia, a outra parte envolvida, da profissional (ADI) também deve ser levada em conta. Ou seja, antes de julgar suas ações, é preciso entender o que a motivou a agir desta forma. Para tanto a resposta a algumas questões se fazem necessárias: quais as condições de trabalho em que esta ADI estava exposta, isto é, havia sobrecarga de tarefas? Jornada estendida de trabalho? Apoio psicológico para os funcionários da creche? Treinamentos constantes, a fim de possibilitar o amparo ao funcionário e o respaldo da estrutura educacional? É possível também pensar, quais os critérios para admissão do funcionário: concurso somente com prova objetiva ou avaliação psicológica como parte do processo, complementando e corroborando para práticas mais consistentes e assertivas?

O fato é que todas as partes deste caso devem ser analisadas para a compreensão correta desta suposta agressão. É indiscutível que, para atuar principalmente com criança, o profissional necessita ter uma generosa dose de paciência, flexibilidade e muita amorosidade. Mas, essas qualificações apenas não são garantias de boa performance. É preciso ir além; boa remuneração, reconhecimento do trabalho realizado, sensação de pertencimento, isso gera satisfação, responsabilidade e comprometimento com a tarefa executada. Já dizia Abraham Maslow, psicólogo norte americano, que estudou a hierarquia das necessidades do ser humano. Dada esta consideração, a pergunta que fica é: isso ocorre no sistema público?

Em suma, é inegável que todos os personagens envolvidos nessa situação: bebês, pais e profissional devam ser acompanhados psicologicamente, a fim de não adquirirem sequelas emocionais ou serem possivelmente rechaçados. Além disso, a situação escancara o alerta aos pais para atenção máxima ao comportamento do filho. A necessidade dos responsáveis estarem inseridos no ambiente escolar de modo a frequentar reuniões, questionar situações que lhe pareçam estranhas às práticas educacionais e; sobretudo, incita o sistema público no que concerne ao formato utilizado no processo admissional destes profissionais, bem como o amparo necessário aos mesmos, a fim de promover o bem estar e a integridade da saúde física e mental de todas os papeis envolvidos nessa trama.

Bebel Rossini Tridapali
Psicóloga
Especialista em Gestão de Pessoas
Instagram: bebel_rossini
F: (14) 99167-9292

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